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Daqui pra frente

Martha Medeiros

“Eu sou rebelde porque o mundo quis assim...” Você não vai lembrar dessa música, e, se lembrar, vai ser esperto e mentir que não lembra. É o choramingo de alguém que acha que foi injustiçado na sua tenra infância, e que agora o mal está feito. Tá assim, ó, de gente que credita seu insucesso ao passado: “Meu pai não me amou, minhas roupas eram todas de segunda mão, meus professores faziam piada com o meu nariz e o primeiro garoto por quem me apaixonei disse que preferia namorar uma drag queen paraguai a ter que me encarar”. Putz, é de frustrar qualquer esperança no futuro.

Todo mundo tem uma história triste pra contar. Todos, não escapa um. E é muito natural a gente justificar as besteiras que faz culpando o episódio a, b ou c da nossa biografia. Você simplesmente é assim desse jeito (fútil, ou agressivo, ou inseguro) por causa do que fizeram com você.

Pois outro dia um amigo virtual me escreveu um e-mail muito interessante.

Ele, que é humano como nós, teve lá seus percalços durante sua criação, e teria todos os motivos pra enfiar a cabeça dentro de um forno e declarar-se inapto para a felicidade. Mas descartou essa atitude covarde. Diz ele: “Não importa o que fizeram com você, importa o que você vai fazer com o que fizeram de você”.

Adorei. É isso aí. Dane-se que não lhe deram carinho, que não se interessaram pelas suas dores. Uma banana para os que lhe fecharam a porta, para todas as respostas negativas que você ouviu. A melhor vingança é não se deixar abater, é transformar este pote até aqui de mágoa em combustível para seguir viagem sozinho. Até mesmo os que estão no topo do ranking dos bem-sucedidos já levaram seus trancos no passado. E no entanto estão lá em cima da pirâmide, abanando para os vampiros e canibais que deixaram pra trás.

Sem desculpa. Você sofreu, todo mundo sofreu, e vem mais provocação por aí, que a vida é isso, paz e chumbo grosso, alternadamente. O que foi, afinal, que fizeram com você? Se ainda não chorou toda essa dor, chore agora, chore até o fim da vida, mas não deixe que isso lhe paralise. O que importa é o que você fez e faz consigo mesmo.


Domingo, 5 de janeiro de 2003.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.